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Número de desastres por ciclones e frentes frias está 19 vezes maior, diz estudo lançado na COP30

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Número de desastres por ciclones e frentes frias está 19 vezes maior, diz estudo lançado na COP30

  • A média anual de desastres climáticos entre 2021 e 2024 aumentou 240% em relação à década anterior (2011–2020) e 1.800% em comparação aos anos 1990
  • Mais de 1 milhão de pessoas foram afetadas por ciclones, frentes frias e ondas de frio
  • Os prejuízos econômicos chegam a R$ 2,74 bilhões: o setor público é o mais afetado em energia, transporte e distribuição, enquanto o setor privado sofre perdas principalmente na agricultura
  • Os dados são do estudo realizado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, em parceria com o Programa Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza

O mês de novembro deve ser marcado pela passagem de novos ciclones extratropicais, e um relatório inédito revela que o número de desastres climáticos relacionados a esses fenômenos e às frentes frias está 19 vezes maior — o equivalente a 1.800% a mais — que na década de 1990. O levantamento, lançado durante a COP30, foi elaborado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, em parceria com o Programa Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Entre 1991 a 2024, o Brasil registrou 407 desastres climáticos relacionados a frentes frias, ciclones e ondas de frio. A média anual saltou de 2,3 registros por ano nos anos 1990 para 44 registros anuais entre 2021 e 2024, um aumento de 240% em relação à década passada (2011 a 2020).

De acordo com o estudo, o aquecimento global está ampliando a intensidade de frentes frias, ciclones e ondas de frio no Brasil. “A superfície do mar mais quente — em um estado que chamamos de oceano febril — libera mais calor e umidade, alimentando e intensificando esses sistemas e provocando ventos e chuvas cada vez mais fortes”, explica Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Unifesp e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

Onde ocorrem

O estudo identificou 232 municípios brasileiros atingidos por desastres do tipo, sendo que 70% estão localizados no interior e 30% na zona costeira. Enquanto o interior sofre majoritariamente com ondas de frio (83%), os municípios litorâneos são impactados principalmente por ciclones (93%). As Regiões Sul e Centro-Oeste concentram 74% dos registros, com destaque para o aumento expressivo de eventos extremos no interior do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — estados que voltaram a registrar ciclones neste mês de novembro.

Entre os tipos de desastres, ondas de frio representam 54% dos casos (218 registros), seguidas por ciclones (38%, 156 registros) e frentes frias (8%, 33 registros). Embora menos frequentes, as frentes frias são responsáveis por desencadear boa parte dos episódios de chuvas intensas e extremos climáticos no país.

Prejuízos

Os impactos econômicos e estruturais são igualmente graves. Os desastres climáticos destruíram ou danificaram 142 mil bens e infraestruturas em todo o país, sendo 94% causados por ciclones. O total de prejuízos chegou a R$ 2,74 bilhões, com R$ 1,5 bilhão somente nesta década, o que representa quatro vezes mais que a década anterior e 17 vezes o valor da década de 1990.

O setor público acumula cerca de R$ 200 milhões em perdas, concentradas principalmente nos setores de energia, transporte e distribuição, que têm sido fortemente impactados pelos ciclones. Já o setor privado registra R$ 2,5 bilhões em prejuízos, resultado sobretudo das ondas de frio, que afetam diretamente a agricultura e o comércio. Entre os bens danificados, habitações correspondem a 52% dos casos, enquanto obras de infraestrutura representam 46% do total de danos registrados.

Vidas afetadas

Desde 1991, os desastres analisados impactaram 1,2 milhão de pessoas no Brasil, com crescimento de 206% em relação à década anterior e quase 40 vezes mais que nos anos 1990. A média anual de pessoas afetadas hoje é três vezes maior do que a da década passada.

Entre os registros diretos, há 27,6 mil desalojados e desabrigados, 2,2 mil feridos ou enfermos e 8 mortes. No entanto, o dado mais preocupante é o impacto indireto: 97% dos afetados (mais de 1 milhão de pessoas) sofrem consequências emocionais, socioeconômicas e culturais — perdas que não aparecem nas estatísticas tradicionais, mas revelam o alcance profundo da crise climática no cotidiano das comunidades.

Adaptação climática

O pesquisador Ronaldo Christofoletti destaca que os dados apresentados no estudo reforçam a urgência das discussões sobre adaptação climática, especialmente no contexto da COP30. “Os municípios vão enfrentar cada vez mais situações extremas como essas e precisarão de apoio e financiamento climático para ações imediatas de prevenção e recuperação. A pauta climática é urgente e precisa ser tratada agora”, afirma.

O estudo também apresenta caminhos para fortalecer a adaptação e a prevenção aos desastres. Nas cidades costeiras, o uso de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) — como a restauração de manguezais, dunas, restingas e recifes — pode reduzir os impactos de ondas, ventos e ressacas, além de proteger a biodiversidade e oferecer benefícios como alimento, turismo e pesca.

“As cidades costeiras precisam adotar soluções inovadoras e fundamentadas na ciência para enfrentar, de forma integrada, os impactos crescentes dos eventos climáticos extremos. Em vez de apostar apenas na rigidez da infraestrutura cinza, precisamos ampliar investimentos em soluções verdes e azuis, como manguezais recuperados, dunas preservadas e áreas verdes urbanas, que se adaptam ao ambiente, reduzem riscos e criam cidades mais saudáveis”, frisa Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário.

Já nas regiões do interior, o foco deve ser o fortalecimento da agricultura sustentável e da segurança alimentar. A adoção de práticas como sistemas agroflorestais, plantio direto, rotação de culturas e o manejo eficiente da água é fundamental para aumentar a resiliência climática e produtiva das comunidades rurais. “Fortalecer a resiliência na cidade e no campo significa investir hoje em prevenção e adaptação de longo prazo, colocando a natureza no centro das estratégias de segurança física, social e econômica”, completa Janaína.

O estudo

O documento “A força do M(ar): os impactos de frentes frias, ciclones e ondas de frio” é o terceiro volume da série “Brasil em transformação: o impacto da crise climática”. A publicação dá continuidade a um conjunto de estudos que investigam como as mudanças climáticas vêm alterando a dinâmica dos desastres no país. O primeiro caderno, “2024: O Ano Mais Quente da História”, destacou o aumento expressivo de eventos extremos, os danos humanos e os prejuízos econômicos relacionados ao aquecimento global. Já o segundo, “Temporadas das Águas: O Desafio Crescente das Chuvas Extremas”, tratou dos impactos provocados pelas chuvas intensas, evidenciando a urgência de medidas de adaptação e prevenção.

Sobre a Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica

É uma rede de Municípios, Estados, instituições privadas e sociedade civil organizada, engajada e mobilizada na implementação de ações locais alinhadas às metas nacionais e globais da Década do Oceano, com foco na promoção da Cultura Oceânica para o desenvolvimento sustentável, em um processo crescente para a construção de Cidades Azuis. Site: https://alianca.maredeciencia.eco.br/ | Redes sociais:@maredeciencia

Sobre a Fundação Grupo Boticário

Com 35 anos de história, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza é uma das principais fundações empresariais do Brasil que atuam para conservar o patrimônio natural brasileiro. Com foco na adaptação da sociedade às mudanças climáticas, especialmente em relação à segurança hídrica e à proteção costeira, a instituição atua para que a conservação da biodiversidade seja priorizada em todos os setores. Alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, considera que a natureza é a base para o desenvolvimento social e econômico do país. Sem fins lucrativos e mantida pelo Grupo Boticário, a Fundação Grupo Boticário contribui para que diferentes atores estejam mobilizados em busca de soluções para os principais desafios ambientais, sociais e econômicos. Já apoiou mais de 1.800 iniciativas em todos os biomas no país. Protege duas reservas naturais de Mata Atlântica e Cerrado – os biomas mais ameaçados do Brasil pelo desmatamento –, somando 11 mil hectares, o equivalente a 70 Parques do Ibirapuera. Com 1,4 milhão de seguidores nas redes sociais, busca também aproximar a natureza do cotidiano das pessoas. A instituição é fruto da inspiração de Miguel Krigsner, fundador e presidente do Conselho do Grupo Boticário, criada em 1990, dois anos antes da Rio-92 ou Cúpula da Terra, evento que foi um marco para a conservação ambiental mundial. | www.fundacaogrupoboticario.org.br | @fundacaogrupoboticario (Instagram, Facebook, LinkedIn, Youtube, TikTok).

Sobre a Rede de Especialistas em Conservação da Natureza

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

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