Mais de 9 mil gigatoneladas de gelo já foram perdidas nas geleiras globais desde 1976. Nas calotas polares da Antártica e da Groenlândia, a perda chega a 8 mil gigatoneladas desde 2002.
O planeta está perdendo gelo em ritmo acelerado e os impactos não ficam restritos às regiões polares. Dados inéditos publicados por pesquisadores do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), com base nos dados consolidados do World Glacier Monitoring Service (WGMS), mostram que as geleiras do mundo perderam 9.179 gigatoneladas (Gt) de massa entre 1976 e 2024. Desse total, 98% foram perdidas após 1990, e 41% apenas desde 2015.
Para dimensionar essa magnitude: 1 gigatonelada equivale a 1 trilhão de quilos. A perda acumulada de cerca de 9.000 Gt nas geleiras desde 1990 equivale a cerca de 18 mil vezes a massa de toda a população mundial atual. Isso mesmo: dezoito mil vezes!
Nas grandes calotas polares da Antártida e da Groenlândia, o cenário é igualmente preocupante: aproximadamente 8.000 Gt de gelo foram perdidos desde 2002, conforme dados de satélites da NASA. Em pouco mais de duas décadas, a perda registrada nas calotas quase se equipara ao que as geleiras perderam em quase cinco décadas, indicando um ritmo anual ainda mais acelerado.
Degelo já altera águas antárticas
Pesquisas conduzidas no âmbito do PROANTAR por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP mostram que o aumento do degelo já está modificando as características físicas e químicas das águas da Península Antártica.
Durante o verão de 2019/2020, marcado por temperaturas atmosféricas excepcionalmente altas, a Baía do Almirantado apresentou redução significativa da salinidade superficial devido ao aumento do aporte de água de degelo. Essa “diluição” altera padrões naturais do oceano e pode impactar a produtividade marinha, a circulação das águas e a dinâmica ecológica da região.
O que isso tem a ver com o Brasil?
Apesar da distância geográfica, as regiões polares desempenham papel fundamental na regulação do clima global. Alterações na circulação oceânica antártica influenciam a formação de massas d’água profundas que distribuem calor pelo planeta.
Essas mudanças podem repercutir no Atlântico Sul, afetando padrões de chuva, frentes frias e eventos extremos no Brasil. Além disso, a elevação do nível do mar ameaça cidades costeiras, infraestrutura e ecossistemas marinhos.
Em um país com mais de 8 mil quilômetros de litoral e forte dependência do oceano para alimentação, transporte, energia e estabilidade climática, o degelo polar não é um fenômeno distante, é um componente estratégico do nosso futuro ambiental e econômico.
Contexto global
Após a COP30, o debate sobre mitigação e adaptação climática ganhou ainda mais centralidade no Brasil. O novo levantamento reforça que a mudança do clima já está em curso e que os sistemas polares respondem de forma rápida e intensa ao aquecimento global.
O recuo das geleiras compromete reservas de água doce e altera ecossistemas de montanha. O derretimento das calotas polares contribui diretamente para a elevação do nível do mar e para mudanças na circulação oceânica e atmosférica.
Sobre o PROANTAR
Criado em 1982, o Programa Antártico Brasileiro garante ao Brasil a condição de Membro Consultivo do Tratado da Antártica desde 1983 e promove pesquisas científicas na região, integrando ciência, preservação ambiental, logística e política externa.
O projeto Com-ANTAR, liderado pela UNIFESP, conecta ciência e sociedade e apoia jornalistas interessados em entrevistas com pesquisadores, imagens de campo e esclarecimentos técnicos.


