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Unesco lança versão em português de kit pedagógico sobre oceanos

Elton Alisson | Agência FAPESP – A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lançou a versão em português do kit pedagógico “Cultura oceânica para todos”.

Elaborado pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) do órgão, o material on-line apresenta uma série de recursos e atividades para que públicos, de todas as idades, possam entender os complexos processos e funções do oceano. Além disso, fornece informações científicas sobre a relação de causa e efeito entre o comportamento individual e coletivo e seus impactos no mar.

O kit pode ser acessado gratuitamente e adaptado para diferentes contextos geográficos e culturais.

“A ideia é que o material possa ser usado por educadores, de disciplinas que não só de ciências ou biologia, para trabalhar conteúdos e desenvolver atividades voltadas à conscientização sobre conservação, restauração e uso sustentável do oceano e de seus recursos”, disse Francesca Santoro, coordenadora do programa “Ocean Literacy” da Unesco e uma das autoras da publicação, durante um evento de anúncio do lançamento do material, em Santos, em setembro do ano passado.

A tradução para a língua portuguesa do material – também disponível em inglês, francês e espanhol – é iniciativa de um projeto apoiado pela FAPESP na modalidade Pesquisa em Políticas Públicas, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Baixada Santista, em parceria com a Prefeitura Municipal de Santos.

Um dos objetivos do projeto é desenvolver metodologias e ações para integrar a ciência oceânica e a sociedade, por meio da capacitação de cidadãos e de professores das redes pública e privada, e promover políticas públicas voltadas à conservação marinha embasadas cientificamente.

O projeto deu origem ao programa “Maré de Ciência”.

O programa de difusão científica tem resultado na criação, nos últimos dois anos, de ferramentas para capacitar professores para promover o ensino ativo de ciências oceânicas nas escolas, em que os estudantes são protagonistas na produção do conhecimento e na construção dos processos de aprendizado.

“O projeto-piloto integra ensino, pesquisa e extensão na Baixada Santista e em escolas em São Paulo, Ribeirão Preto e Rio Claro. A meta é expandir, agora, para outras regiões do país, como em comunidades na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro”, disse à Agência FAPESP Ronaldo Adriano Christofoletti, professor da Unifesp e coordenador do projeto.

“Continuaremos a desenvolver nossas próprias metodologias para engajar a sociedade na discussão sobre a conservação dos oceanos, e usaremos o kit pedagógico como mais uma ferramenta”, afirmou Christofoletti.

Um dos pilares do projeto Maré de Ciência é promover a cultura oceânica, ou seja, o reconhecimento de que o relacionamento do homem com o oceano é um processo cultural, que envolve conhecimento, arte e costumes.

“Os cidadãos precisam entender a influência do oceano sobre eles e vice-versa. Dessa forma, serão capazes de tomar decisões informadas e responsáveis em relação ao oceano e seus recursos, uma vez que os problemas como a poluição do mar, por exemplo, se devem a escolhas individuais, como usar sacolas e embalagens plásticas”, avalia Santoro.

Os municípios litorâneos têm sido especialmente impactados por esse problema. Por isso, são os mais interessados e precisam implementar ações concretas para diagnosticá-lo e atacá-lo na fonte, destacou Marcos Libório, secretário de meio ambiente de Santos.

“Os municípios litorâneos precisam ter participação ativa no processo de engajamento da sociedade no combate à poluição oceânica, porque os custos acabam sendo arcados por eles”, afirmou.

“Boa parte do lixo e resíduos que recolhemos em Santos, por exemplo, é de responsabilidade da indústria, que poderia produzir embalagens de forma diferente, mais sustentável, o que evitaria que uma grande quantidade de plástico chegasse ao oceano”, explicou Libório.

Década dos oceanos

A promoção da cultura oceânica é uma das metas da Unesco para a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (Década do Oceano), que a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou para os anos de 2021 a 2030.

Esse período corresponde à última fase da Agenda 2030 – um plano de ação estabelecido pela ONU em 2015 para erradicar a pobreza e proteger o planeta, que contém 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs).

“É a primeira vez que há um movimento global que pretende transformar o modo como se faz e se usa a ciência oceânica. A ideia é engajar a ciência oceânica de modo a colocá-la a serviço da sociedade”, disse Vinícius Lindoso, oficial de comunicação da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco.

Alguns dos objetivos da iniciativa são tornar os oceanos limpos, saudáveis, resilientes e seguros, além de produtivos, de forma que possam ser explorados de modo sustentável. “Para isso, a ciência oceânica deverá desempenhar um papel fundamental”, afirmou Lindoso.

Uma das questões que deverão ser tratadas durante a “Década do Oceano” é o planejamento espacial marinho. A ideia é que os governos, assim como fazem planejamento urbano, definindo quais áreas de uma cidade podem alocar determinadas atividades, como comércio e serviços, também façam o zoneamento marinho, delimitando em quais áreas marinhas podem ser exploradas atividades como pesca, exploração de petróleo e turismo.

“A União Europeia já está trabalhando com a Unesco para que até 2030 pelo menos 40% da área costeira do mundo seja zoneada”, exemplificou Lindoso.

Já o Brasil está organizando a consulta regional da Década do Oceano para o Atlântico Sul – a porção Sul do oceano Atlântico. 

“O Brasil tem uma extensa área oceânica sob sua jurisdição, denominada Zona Econômica Exclusiva ou Plataforma continental [cuja área corresponde a, aproximadamente, 3,6 milhões de quilômetros quadrados], que já foi chamada apropriadamente de ‘Amazônia Azul’ em termos de tamanho, biodiversidade e potencial de exploração econômica sustentável”, disse Frederico Antonio Saraiva Nogueira, vice-presidente da COI para o grupo III – América Latina e Caribe.

“É preciso olhar para essa ‘Amazônia Azul’ da mesma forma que se presta atenção hoje à ‘Amazônia verde’”, sugeriu.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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