por Sara Regina Sampaio de Pontes – Rede de Cultura Oceânica na Educação, IFPR e Michelle Pinheiro Vetorelli – Projeto Cultura Oceânica MS, UFDPAR/UFGD.
O tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia deste ano é “Planeta Água: a Cultura Oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território” — e, para quem vive longe da costa, não é raro que surjam reações de estranhamento. Com tantas demandas científicas e pedagógicas no cotidiano escolar, deixar o conhecimento sobre o oceano fora das prioridades pode parecer, à primeira vista, uma escolha justificável. Mas esse argumento se desfaz quando aplicamos um olhar mais integrado, crítico e socioambiental.
Apesar de diversos esforços e movimentos em curso, o termo Cultura Oceânica ainda é pouco conhecido, sobretudo entre pessoas que não têm uma vivência direta com regiões costeiras. Por isso, o primeiro passo é esclarecer do que se trata. Cultura Oceânica é uma tradução adaptada da expressão Ocean Literacy, que dá nome a um movimento internacional que busca promover a compreensão da relação entre as pessoas e o oceano. No Brasil, esse movimento de aproximação da sociedade com o oceano não é recente e já foi chamado, dentre outros nomes, de educação ambiental marítima, educação marinha costeira e mentalidade marítima, sendo consolidado recentemente o termo Cultura Oceânica como tradução de Ocean literacy. Essa escolha não foi apenas linguística: ela expressa nossa concepção de educação como algo que vai além da transmissão de conhecimentos: envolve reconhecer como a relação com o oceano já existe nos diversos territórios, mesmo os mais distantes da costa; problematizar as injustiças nessa relação; e, promover transformações baseadas nesse entendimento. Mais do que falar de uma única cultura oceânica, é preciso pensar em culturas oceânicas, no plural, moldadas pelas experiências, saberes e vivências de cada povo, em cada lugar.
Pode ser que, até aqui, essa reflexão pareça distante — mais um tema, mais um conteúdo, mais uma demanda para educadores e educadoras já sobrecarregados. Mas há dois bons motivos para acolher essa discussão:
- O conhecimento sobre o oceano é essencial para a justiça socioambiental e climática;
- Ele já faz parte dos currículos escolares e universitários — o que talvez falte são espaços e tempos para olhar com mais cuidado para o mar e reconhecer sua importância.
A verdade é que um oceano saudável é vital também para quem vive longe da costa. É ele que ajuda a manter a composição da atmosfera — o oxigênio que respiramos tem origem, em grande parte, dos organismos marinhos. É ele que regula o clima e o regime de chuvas, fundamentais para a produção agrícola e para a vida nas cidades. O aquecimento dos oceanos ou mudanças em suas características físico-químicas são sinais de alerta, inclusive para quem nunca viu o mar: a crise climática é uma realidade que já afeta, direta ou indiretamente, todos os territórios.
Há também a dimensão alimentar: segundo a ONU, o oceano é fonte direta de alimento para cerca de 3 bilhões de pessoas no mundo. Do sal que usamos no preparo dos alimentos à sardinha enlatada que está na prateleira do mercado, o mar está mais perto do que se imagina.
Mesmo longe da praia, o oceano influenciou e influencia nossas vidas.
Historicamente, ele moldou o mundo: rotas de navegação, migrações forçadas ou voluntárias, trocas culturais e disputas geopolíticas e provavelmente nossos ancestrais cruzaram o oceano para chegar onde estamos hoje (escravizados ou por vontade própria). Em tempos de globalização, qualquer ameaça ao transporte marítimo provoca impactos globais — do abastecimento de alimentos ao preço de produtos no comércio local.
O mar também habita nosso imaginário: talvez você tenha visto o oceano pela primeira vez na televisão ou no cinema, sentido medo do tubarão, se encantado com o azul de uma lagoa. Mesmo sem jamais ter pisado na areia, é possível que canções de fé evoquem as “águas de Iemanjá” ou pensem em como “as ondas do mar da vida” são desafios, ou ainda, que poemas e lendas tragam o som das ondas para sua vida e cotidiano. O oceano está na arte, na literatura, nas crenças — inclusive de quem vive no interior.
Assim como um gigante que, de tão imenso, passa despercebido pelos pequenos, o oceano tem sido, por muito tempo, ignorado. Seguimos poluindo, liberando Carbono que o torna mais ácido, destruindo ecossistemas costeiros, navegando com cargas que transportam espécies invasoras, e consumindo diariamente seus produtos — do sal ao peixe, do minério ao eletrônico importado.
Não importa se o convite vem da UNESCO, de uma escola azul, de um pescador, de um caiçara, de uma professora ou de um agricultor: reconectar-se com o oceano é fundamental para enfrentar a crise climática. Afinal, sem azul, não há verde — e essa compreensão precisa ser compartilhada e vivida por todas as pessoas.
A Cultura Oceânica também se revela um potente eixo integrador entre diferentes áreas do conhecimento. As ciências naturais se debruçam sobre os processos físico-químicos e biológicos; a geografia nos ajuda a compreender os usos do território marinho e costeiro, suas dinâmicas e desigualdades; a história e a sociologia analisam como as sociedades se relacionaram com o mar ao longo do tempo; a economia estuda as cadeias produtivas associadas; o direito discute os marcos legais e as disputas em torno dos bens comuns marinhos; a arte e literatura são atravessadas por imagens e sentidos atribuídos ao mar; e, a educação, por sua vez, tem o papel de democratizar esse conhecimento e promover consciência crítica desde os primeiros anos escolares até o ensino superior. Assim, pensar a Cultura Oceânica é, inevitavelmente, ativar o diálogo entre saberes e disciplinas, favorecendo uma formação científica mais ampla, conectada e sensível à complexidade dos desafios contemporâneos.
Desta forma, superado o estranhamento inicial, o tema da SNCT de 2025 – “Planeta Água: a Cultura Oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território” – mostra-se tão relevante quanto os dos últimos anos, especialmente quando buscamos conexões com os desafios locais. Em 2024, por exemplo, o foco esteve nos biomas brasileiros, o que nos levou a refletir sobre as singularidades ecológicas de cada região. Já em 2023, a ciência básica ganhou destaque, nos convidando a valorizar os fundamentos do conhecimento científico presentes no cotidiano. Em todas essas edições, a proposta foi a mesma: aproximar ciência e sociedade.
O oceano, mesmo invisível em muitas paisagens do interior, também faz parte dessa equação. Conectar esses temas às realidades territoriais significa compreender que todos os lugares — da zona rural ao centro urbano, da floresta ao sertão — são atravessados por fenômenos globais, e que promover a cultura oceânica é, também, promover justiça ambiental, educação crítica e cidadania planetária.


